Sobre o hábito de chupar dedo…

IMG_6942Uma parte importante do repertório de comportamentos do bebê é uma grande coleção de reflexos, os quais são respostas físicas automáticas desencadeadas involuntariamente por um estimulo especifico. Muitos desses reflexos ainda estão presentes nos adultos: a piscada de olho automática quando um sopro de ar atinge nossos olhos, ou a contração involuntária das pupilas diante de uma luz forte. Outros, às vezes referidos como reflexos adaptativos, são essenciais para a sobrevivência do bebê, mas desaparecem, pouco a pouco, geralmente durante o primeiro ano de vida. Os reflexos de sugar e engolir são proeminentes nessa categoria.

Ainda no útero, o bebê pode chupar o dedo, embora ainda não ligue a sucção com a satisfação do apetite, é um comportamento natural, já que uma das partes mais sensíveis do corpo imaturo de um bebê é a língua, com suas centenas de terminações nervosas torna a sucção uma maneira excelente de perceber as coisas. Por isso, crianças pequenas põem coisas desconhecidas na boca para ter uma ideia de suas proporções e texturas, em vez de senti-las com suas mãozinhas desajeitadas. Quando o bebê chupa o dedo no útero, ele descobre a sensação da pele e o formato do polegar, além de poder sentir tanto conforto quanto um bebê já nascido.

Na época do primeiro aniversário muitos bebês já estão afeiçoados a um “objeto consolador” qualquer, pode ser um brinquedo macio, um paninho, ou um cobertor que provavelmente ajuda a dormir e pode ser agarrado quando eles estão se sentindo inseguros e contrariados. Mas, outros bebês se apegam a chupeta ou ao polegar, e isso, por enquanto, não é motivo para preocupação.  À medida que a confiança e a independência do bebê se desenvolvem, ele se torna menos dependente desse “hábito”.

Não existe uma idade certa para a criança parar de chupar o dedo, por isso os pais não devem se desesperar, mas precisam se manter atentos caso esse costume persista após o primeiro ano de vida. Quando se torna frequente e vai muito além desta idade, esse comportamento pode gerar problemas fisiológicos, estéticos, emocionais e até de convivência em sociedade.

Muitas vezes uma criança que já tem idade para desenvolver outras habilidades de enfrentamento e alívio (como a fala, por exemplo) não consegue deixar o hábito de chupar o dedo, e isso se torna uma mania. A psicóloga Céres Mota Duarte explica que chupar o dedo inicialmente é instintivo, e esse comportamento vai se tornando automático, então a criança, de forma muito espontânea, continua fazendo uso desse hábito, que é reforçado pelo próprio alívio e prazer que isso proporciona a ela.

 Muitos pais, aflitos com as consequências que o habito de chupar o dedo podem causar na criança, mesmo que a longoIMG_6950 prazo, acabam apelando  para o uso de algumas técnicas como passar substancia amarga nos dedos ou colocar luvas. Segundo a psicóloga, esses recursos não resolvem e podem até piorar o hábito. “A melhor forma de lidar seria os pais prestarem atenção aos momentos que a criança chupa o dedo, e identificar quais são as situações que antecedem esse comportamento, pois a criança usa esse gesto como forma de lidar com situações de cansaço, sono, insegurança, fome, mudanças e etc.. Então, os pais podem se antecipar e atender a necessidade da criança, assim ela automaticamente diminuirá o comportamento. Distrair a criança com outras coisas também pode ajudar.”

É importante lembrar que uma criança maior que ainda chupa o dedo também pode ser excluída do grupo devido ao comportamento considerado infantilizado, já que para os amiguinhos chupar o dedo pode ser caracterizado como “coisa de bebês”. Céres destaca que se ridicularizada e constrangida, a criança poderá afetar sua autoestima, gerando prejuízos emocionais. Por isso, ela sugere que dependendo da frequência, intensidade e duração do hábito, se os pais perceberem que está difícil de lidar com a situação, uma boa ideia é procurar ajuda profissional. O Psicólogo irá inicialmente diagnosticar se o hábito é realmente significativo ou não, ou seja, se existe um fator psicológico ou emocional associado ao comportamento da criança, e então poderá planejar como intervir, pois dependendo da avaliação, as intervenções serão realizadas nos aspectos relacionados às causas e não apenas diretamente no comportamento de chupar o dedo.

A odontopediatra, Dr.ª Dalva Pereira Terra, orienta que muitas vezes é preciso dar importância para um atendimento multidisciplinar, já que para os dentistas o período de sucção não-nutritiva pode ser tolerado até os 3 anos de idade. Porém, ela enfatiza que mesmo antes disso a sucção do dedo dever ser utilizada de forma racional, diminuindo gradativamente seu uso para que a criança abandone este hábito espontaneamente através de estímulos positivos. De acordo com a odontopediatra, o hábito da sucção de dedo pode acarretar em deformações ósseas dos maxilares, alterações do posicionamento dos dentes (mordidas abertas anteriores, mordidas abertas posteriores, mordidas cruzadas, giroversões, etc), má posicionamento lingual (em repouso, na fala, na deglutição, respiração bucal, entre outros). O dentista pode estimular e ajudar no abandono deste hábito nocivo, contando também com aparelhos móveis e fixos que podem dar excelentes resultados no tratamento.

IMG_6941A fonoaudióloga Jandiara Battaglin Portela diz que uma criança que permanece chupando o dedo por muito tempo pode passar a respirar pela boca, já que a mesma permanece aberta, havendo não só a alteração na função respiratória como também na postura e musculatura da face. Esclarece que o palato (céu da boca) se elevará, já que o dedo ficará fazendo uma pressão sobre ele e sobre as estruturas mandibulares e maxilares provocando alterações de mordida. E por fim, a criança poderá ainda apresentar também alterações na fala, já que com todas essas alterações ficaria muito difícil haver à  pronúncia correta dos sons. “É importante analisar uma série de fatores para considerar a probabilidade de que possam ocorrer alterações, isto quer dizer que depende de cada situação, por exemplo, uma criança pode apresentar uma alteração em apenas dois meses enquanto outra pode nunca apresentar, não há uma regra, já que cada criança é diferente da outra.” Por isso, Jandiara aconselha que o quanto antes for feita uma avaliação e a remoção do hábito de chupar o dedo, melhor será o prognóstico. Geralmente, procura-se o fonoaudiólogo quando já se evidencia uma alteração na fala ou quando a criança é encaminhada por outro profissional, como o cirurgião-dentista, que tem o objetivo de adequar à má oclusão ocasionada por esse hábito. O fonoaudiólogo poderá não só prevenir alterações futuras, como também adequar às estruturas que já sofreram algum prejuízo através da Terapia Miofuncional Orofacial e da Terapia da Fala quando se fizer necessário.

Sendo assim, por mais fofo que seja ver uma criança chupando o dedo com frequência, a principal dica é evitar ao máximo esse hábito, nem que para isso seja necessário o uso de outro hábito oral como a chupeta, que quando ortodôntica é menos nociva que o dedo e também mais fácil de ser retirada. Mas para aqueles que já se deparam com dificuldades em relação a esse costume, procurem o quanto antes ajuda profissional, evitando problemas maiores e mais difíceis de serem sanados.

 

⇒Referências:

 

– A criança em desenvolvimento- Helen Bee

– Mães, Pais e Seus Bebes – Miriam Stoppard

– A Bíblia da Gravidez – Alice D´Agostini Deutsch e Wladimir Taborda

 

 

⇒Profissionais colaboradores:

 

♥Céres Mota Duarte. Psicologa Clinica há 25 anos. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental. Diretora Fundadora do ITCC. Coordenadora da Comissão de Avaliação Psicológica do CRP/MS.

♥Dalva Pereira Terra– CRO/MS 183. Mestre em Odontopediatria. Professora de Odontopediatria UFMS. Especialista em Odontopediatria e Dentística. Professora de Especialização de Odontopediatria em MS.

♥Jandiara Battaglin Portela– CRFa 0866. Fonoaudióloga (Faculdades Integradas Teresa D’Ávila – Lorena- SP). Pedagoga (Unigran – Universidade da Grande Dourados – MS). Pós-graduanda em Psicopedagogia na Unigran.

 

Um agradecimento especial aos nossos ” baby models” : “Dudu” e “Belinha.“♥

Comentários

Comentários

Posts Relacionados