Sarah Kallies: “Com licença, vou passar este creme tóxico no meu filho”

Esse”padrão moderno,” de racionalizar tudo o que somos , o que temos , o que fazemos, o que oferecemos gera uma certa angustia, né? Precisamos ter cuidado, porque muito do que apontamos no outro as vezes também está em nós e nem percebemos. Cada ser humano é único, cada família é única, não dá para colocar todo mundo no mesmo pacote . Precisamos confiar nas nossas intuições e respeitar as nossas crenças, mas para isso precisamos saber separar o que é nosso e o que não é, e respeitar isso “que não é”, pois para outra mãe “é”! Entende? Essa confiança e assertividade na maneira em que educamos, nos liberta daquela culpa, que toda mãe carrega por não saber se está fazendo o melhor pelo filho.

Recebi parte do texto a seguir via WhatsApp, achei interessante, e resolvi pesquisar o autor. Acabei achando o artigo completo, me identifiquei tanto! Acho que toda mãe se sentiu assim, pelo menos uma vez na vida. Mas com o tempo, acabamos aprendendo a buscar informação, procurando focar nas fontes certas e com bom senso para julgar o que é bom ou não na nossa concepção!

vamos amar mais e julgar menosÉ Memorial Day, feriado prolongado nos Estados Unidos, o começo da temporada de verão. Estamos na casa de campo com a família. Deveríamos estar descansando e relaxando. Uma época de gratidão. Uma época para lembrar daqueles que deram suas vidas pela nossa liberdade.

Meu marido vem trabalhando muito nos últimos tempos, fazendo vários freelas, então estamos esperando essa viagem há semanas. Compramos as primeiras varas de pescar para nossos gêmeos de dois anos e planejamos uma caça ao tesouro.

Um dos meus meninos olhou para mim e disse: “Mamãe está cansada”. Sim. Sim, Bennett. Mamãe está cansada. Mamãe está muuuuuuito cansada. Faço o que posso para que minhas questões emocionais não afetem meus filhos, mas eles estão ficando maiores e mais perceptivos.

Não dá para enganá-los para sempre. E estou percebendo que você não precisa ter uma doença mental como eu para que isso seja uma questão. Se você não for louco, o mundo vai te enlouquecer.

Estamos todos na mesma correria. Fazendo o melhor para criar nossos filhos. Para mantê-los seguros. Para protegê-los desse mundo difícil.

Mas o que acontece quando o mundo te diz que você é o problema?

Que você não toma cuidados suficientes. Não presta atenção o suficiente. Não é diligente o suficiente.

Esse era meu maior medo diante da maternidade. Na realidade, durante a maior parte da minha vida tive certeza de que não teria filhos.

Com minhas questões de infância e meus problemas de ansiedade e depressão, achava que não daria conta do recado. E acredito que o clima cultural de hoje não ajuda. Regras demais.

Sinceramente, com esses padrões, ninguém está à altura do desafio.

Na noite antes de partirmos, li um artigo sobre os piores tipos de protetor solar para crianças e adultos. Como não poderia deixar de ser, os que eu tinha comprado estavam no topo da lista. Claro. Jogo tudo fora e desperdiço 30 dólares, que não é pouco dinheiro para a gente?

Aí vou comprar os protetores bons, cremes feitos por minúsculas fadas, cheios de amor e vida e eterna, pelo preço de um ovário? E, a propósito, eles só são vendidos na Califórnia, onde vivem as fadinhas.

Ou uso esse creme tóxico nas minhas crianças porque obviamente, segundo este artigo, eu não cuido dos meus filhos?

Estou cansada, pessoa. E não é só porque meu marido está trabalhando demais. Ou porque tenho dois filhos que só funcionam a 0% ou a 120%.

Eles vivem no que gosto de chamar de Planeta Capitão Eu. A visibilidade é zero e eles estão voando o tempo todo a 200 km/h. Tudo bem. Sob controle.

Estou cansada de tantas regras. Regras sobre comida. Regras sobre higiene. Regras sobre roupas. Regras sobre escolas/educação. Regras sobre desenvolvimento. Regras sobre remédios. Regras sobre métodos para dormir.

Regras sobre horários de brincar. Regras sobre amigos. Regras sobre cadeirinhas de carro. Regras sobre amamentação. Regras sobre criação dos filhos. Regras sobre televisão. Regras sobre regras.

E você pode trocar “regras” por outras palavras. Opiniões. Lições. Estudos. Diretrizes. Programas. Crenças. Padrões. Políticas. Ad nauseam.

Deu para mim. Por favor, do fundo do meu coração exausto, pegue esse gráfico de pizza e enfie lá.

Em todos os meus anos de ansiedade e preocupação com filhos, nunca tinha me dado conta de que eu poderia não ser o problema.

Que amar e fazer o melhor para prover para meus filhos com os recursos disponíveis, sem enlouquecer ou quebrar a banca, era sinônimo de ser uma mãe responsável.

Que ser bipolar ou tomar remédios não seria o que me tiraria o sono. Em vez disso, me pergunto se lavei as roupas novas antes que os meninos as usassem, porque li uma reportagem sobre a presença de químicos tóxicos que podem fazer mal para a pele.

Vamos dizer de uma vez que tudo está tentando nos matar? O tempo todo? E pronto? Bola pra frente? Todos vamos morrer um dia. As coisas saíram do controle.

Eu quero servir uma refeição para os meus filhos. Só uma refeição sem ter uma voz na minha cabeça dizendo que eles podem estar ingerindo o banquete de Satã.

Ainda não sei, porque não achei tempo na minha agenda para pesquisar todos os ingredientes listados na embalagem.

Não estou dizendo que ser pró-ativa é errado. Não estou dizendo que se preocupar com essas questões é errado. Não estou dizendo que ter voz é errado.

Faça o possível. Quando der. Eu sei que faço. Para todas as mães campeãs nesse departamento, parabéns. Vocês têm todo o meu respeito. De verdade. Merecem comendas.

Eu estou cansada. Cansada de tudo. Olho para meus meninos quando os ponho para dormir e eles são as pessoas mais doces, felizes e saudáveis que já conheci. Eles são as melhores coisas que eu já fiz. Essa é a coisa da minha vida que sei que estou fazendo direito.

Concordem as últimas tendências ou não. Às vezes queria viver numa época em que eu não fosse inundada diariamente com esse tipo de artigo.

Meu pai e minha madrasta têm uma clínica para cuidar de crianças vítimas de tráfico humano na Tailândia. Duas semanas atrás eles acolheram uma criança de três anos. Repito, de três anos.

Ela nunca falou e está completamente desnutrida. Só Deus sabe o que ela viu e pelo que já passou. Enquanto isso, aqui no Ocidente, nos torturamos para saber se botamos nossos filhos na cama na hora certa.

Então é isso. Postem todos os artigos ferinos. Compartilhem as últimas revelações. Vou passar. A vida já é difícil demais. Vou viver e me jogar em cada momento com meus meninos.

Quando vir “10 coisas do ar que você não fazia ideia de que está respirando” ou “Você sabia que abrir os olhos pode ser fatal?”, vou desligar o computador e dormir. E sonhar com a próxima viagem de camping.

Ou nossa caminhada. Porque estou cansada. Muito, muito cansada. E estou mais interessada em viver cada dia com meus filhos em vez de morrer com eles.

(  Com licença, vou passar este creme tóxico no meu filho, foi escrito por Sarah Kallies e publicado no jornal Huffpost dos Estados Unidos.)

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