BRINCADEIRA

Por William Souza.

brincadeiras

Você sabia que esta semana é a semana que comemora a brincadeira? Pois é, não estou brincando. Soube disso anteontem e fui incumbido de escrever sobre o assunto.

É difícil não pensar na infância quando falamos de brincadeira e deve ter um motivo especial para isso. Talvez o motivo seja que a brincadeira tem início na infância, alguns estudos mostram que o bebê dentro da barriga da mãe é capaz de brincar com as próprias mãos, fazendo gestos e como que “testando” a habilidade de mover as mãos, com o passar do tempo apenas outros objetos (carrinhos e bonecas…) vão sendo incorporados a brincadeira e outras pessoas (amigos, irmãos, colegas…) também vão podendo participar e assim nós crescemos, “testando” o que é a vida adulta através das brincadeiras.

Brincar é a coisa mais importante da infância, equivale ao trabalho do adulto. Através do trabalho o adulto se relaciona, sustenta a sua família, contribui para a sociedade e ressignifica sua própria vida, molda sua personalidade a partir de sua função no trabalho. A criança faz a mesma coisa, só que ao invés do trabalho ela usa a brincadeira para se relacionar, estruturar sua personalidade, ressignificar sua própria vida e se sustenta com isso, pois não há diferença entre viver e brincar para uma criança.

A criança impedida de brincar é psicologicamente uma criança falida, desvitalizada. Contextos de guerra ou miséria, por exemplo, em que o medo da morte ou a urgência da fome são maiores do que a capacidade de brincar são redutos das maiores psicopatologias, desde despersonalizações psicóticas a desvios de caráter, e tudo isso só porque não se teve a chance de brincar.

Brincar não significa apenas vestir bonecas ou empurrar carrinhos, pra dizer de duas formas mais exemplares de brincadeira. Brincar quer dizer, na leitura que faço, poder construir através da brincadeira um mundo onde a fantasia pode ser experimentada na realidade, mas também não é só isso. Brincar também é uma forma de linguagem que a criança usa para falar principalmente de seus sentimentos. Através da brincadeira a criança constrói um mundo que ao mesmo tempo que é fantasia também é realidade e por isso é um ato de criatividade.

A criatividade pressupõe a transformação daquilo que é pensamento vindo da fantasia em realidade, e costumamos resumir isso nesta frase: poder realizar coisas na vida! Através da brincadeira a criança realiza ‘coisas na vida’ e isso dá a ela a dimensão de que aquilo que é sentimento, é real. Ou seja, através da brincadeira a criança convence a si mesma de que aquilo que ela é capaz de sentir é real e assim ela constrói sua própria autonomia, sua autoestima, passando a ter segurança em si e em sua própria existência.

Talvez algumas pessoas se perguntem, quando a gente cresce e vira adulto, deixamos de brincar? Deixamos de construir nossa própria autonomia? A resposta é não. Por mais que um adulto, comumente não vista bonecas ou empurre carrinhos ainda sim é capaz de manter ativo suas fantasias e busca, constantemente realizar as fantasias, principalmente as que são mais socialmente aceitas ou mais capazes de serem aceitas e isso é fundamentalmente, brincar.

O poeta, por exemplo, é um sujeito que brinca com seus próprios pensamentos e usa as palavras como objetos de sua brincadeira. O cientista brinca com os elementos da natureza para afirmar e reafirmar aquilo que antes era apenas uma hipótese, ou seja, uma fantasia. Einstein, pra vocês terem uma ideia, vivia brincando em seus pensamentos com a possibilidade de poder caminhar por um feixe de luz e ficava perguntando a seus amigos, a ponto de ser chato de tanto perguntar, o que aconteceria com ele se caminhasse por um feixe de luz e a partir disso ele descobriu que toda matéria é composta de energia, ou seja, o chão onde pisamos é composto de feixes de luz condensado em matéria e pôde então compor a sua fórmula matemática para representar tudo isso que é a fórmula mais famosa de todas: E=MC² (energia é igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado). E assim, até mesmo a explicação científica mais contundente e aceita até hoje sobre a origem do nosso universo vem de uma simples e “boba” brincadeira de se imaginar caminhando por sobre um feixe de luz.

Acho que não preciso dizer mais nada do que, através da brincadeira somos capazes de construir. Para terminar deixo aqui uma frase de Pereira da Viola (cantador e violeiro nascido no vale do Jequitinhonha em Minas): “Brincar é a coisa mais séria da vida”.

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