Boadrasta ou madrasta?

Eis a questão…

Vou iniciar meu depoimento com uma afirmação e pergunta muito comuns que escuto: Nossa você se dá tão bem com a sua enteada. Como você consegue?

A questão não é como consigo e sim como deixei que acontecesse naturalmente. É muito comum as pessoas se relacionarem com alguém que já tem filhos, no começo você pensa: não vejo problema algum nisso! E de repente quando você percebe já está embirrado, relutando contra o contato com aquela pessoinha que pode vir a ser uma “intrusa” em seu relacionamento. Sim, parece cruel né? Mas essa é a dura realidade de muita gente como a gente. Não adianta acharmos que tudo são mar de rosas e que todo relacionamento é um conto de fadas por que não é bem assim. Todo relacionamento é complicado pois envolve duas pessoas completamente diferentes, imaginem quando existem “terceiros” em meio a tudo isso.
Mas agora falando de mim, no começo do namoro eu não vi empecilho algum em meu cônjuge ter uma filha de apenas 9 meses. Com o passar dos meses eu vi que não era assim tão fácil pois como ela era um bebê precisava de muitos cuidados e carinho. Eu não tinha jeito com criança então quem dirá com um bebê. Acabei por afastar ela de mim. Ela não gostava quando eu estava perto, não vinha comigo de jeito nenhum, eu acabava perdendo a paciência e deixava pra lá.

Oi? Como assim deixava pra lá? Pois é, eu ficava triste com meu fracasso como madrasta, todo mundo falava assim “é bom ela ser tão novinha, se acostuma mais fácil com você” e eu sabia que não era a minha realidade, era tão difícil fazer ela me aceitar e vir comigo mesmo sendo tão novinha. Ela ficava arredia, irritada, chorava, berrava, me olhava e chorava desesperadamente. Cheguei a chorar junto muitas vezes. Um dia falei pro pai dela que não sabia mais o que fazer, que estava desistindo pois não aguentava mais aquela situação. Ele como sempre muito calmo (ele foi maravilhoso com todo esse processo. Essa situação é delicada então é muito importante o pai ou mãe da criança saber lidar com as dificuldades de todas as partes, muito amor e paciência são essenciais) me disse: “Amor, criança sente quando nós não nos doamos. Se entrega que você vai ver como vai dar certo.” Eu fiquei com a pulga atrás da orelha me consumindo e matutando muito como seria essa minha entrega. Comecei a pensar positivo, ser mais calma com ela, ser mais carinhosa. Literalmente respirei fundo e deixei rolar com naturalidade. Fui me entregando e deixando um novo sentimento nascer. Em pouco tempo ela conseguiu se entregar assim como me entreguei. Até hoje mesmo ela sendo maiorzinha e sentindo um pouco de ciúmes do pai comigo ou com nosso bebê (tivemos o Guilheme que está com um ano) ela ainda é incrível comigo e eu faço de tudo pra ser incrível com ela. Ela até já quis morar conosco, e se a mãe dela topasse nós íamos amar.
Como todo relacionamento de boadrasta existe uma outra mãe envolvida, e gente, sei que em muitos casos não é possível mas se for tenham um bom relacionamento com a mãe. Em casos assim, brigar, ofender ou até mesmo virar a cara só vão acabar por destruir a relação. O meu conselho é em primeiro lugar se dêem bem com a mãe ou pai da criança, pois assim o acesso vai ser bem mais fácil, deixando o caminho livre para a criança te conhecer, te aceitar e passar a gostar de você. Não invente uma disputa com os filhos do seu marido ou esposa, é muito cruel colocá-los para escolher algum lado e com certeza eles escolherão os filhos na maioria das vezes. Resumindo, você jamais será uma boadrasta se não houver 100% de entrega primeiramente da sua parte.
Eu tinha duas opções, não aceitar minha enteada, fazer meu marido infeliz até perdê-lo. Ou aceita-lá de coração trazendo ela pro nosso lado. Eu fiquei com a segunda opção e garanto que quem mais ganhou e cresceu com tudo isso foi eu. A Júlia hoje está com 5 anos, é a menina mais doce que eu conheço, é extremamente inteligente e nos surpreende muito sempre.
Gente entendam, quando vocês deixarem de ver enteados como obstáculos e se doarem de coração pra eles, eles retribuirão igualmente. Carinho, amor e respeito é tudo em uma família.

“Um dia vc se da conta do que tem realmente valor nessa vida. Você nota que o que muitos veem como barreira pra você significa estar completo. Só digo uma coisa a todos, com carinho, amor e respeito tudo se encaixa e vale a pena. Crianças entram nas nossas vidas para nos ensinar como ser melhores e saber o que é doação sem esperar nada em troca. E finalmente tenho certeza de que a minha família que antes eu achava ser torta, na verdade é a mais perfeita que poderia ser. A vida seria muito monótona se fosse apenas de linhas retas.”

Luba Ávila

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