A história de um príncipe

Por Jú Veiber

 

Desde que a Nina me contou da ideia do blog, ela me pediu para que eu desse meu depoimento sobre o nascimento prematuro do meu filho, pois assim poderia ajudar outras mães que passam por esta mesma situação. Topei na hora, mas não imaginei o quanto seria difícil relembrar esta história e colocar todas as emoções no papel. Faltava-me coragem para iniciar. Um bom tempo depois, consegui dar início a este pedido tão carinhoso.

Na minha vida, sempre tentei planejar tudo. E assim foi. Quando me casei, um dos planos era ser mãe…

Tive uma gestação muito tranquila, sem enjoos. Apenas sono e muita fome no primeiro trimestre. Mas após este período, minha pressão começou a subir e tive que começar a controla-la com medicamentos. Aos cinco meses de gestação eu comecei a inchar muito, a ponto de algumas vezes eu não conseguir andar direito.

Quando cheguei a 28 semanas, minha pressão foi à 18/11 e tive que ficar uma semana internada. Fazia exames de sangue e urina todos os dias, drenagem linfática e ultrassom para acompanhar o desenvolvimento do bebê. Tive que tomar uma injeção para acelerar o desenvolvimento do pulmão do neném, pois corria o risco de nascer a qualquer momento.

Mas com o acompanhamento médico e os medicamentos corretos, meus exames melhoraram e minha pressão controlou. Tive alta do hospital e repetia os exames toda semana, pois a pressão alta desencadeou outros problemas de saúde (Síndrome de Hellp). Tive que ficar em repouso absoluto (mas ainda fui trabalhar por 01 semana). Em um dos dias que fui fazer o US com meu obstetra, ele percebeu que o bebê não se desenvolveu em relação ao US da semana anterior. Então, ele ligou imediatamente para o hospital, reservou uma vaga na UTI Neonatal e me pediu para ir direto para o hospital, para me preparar para o parto, pois seria naquele dia.

Como assim?! Eu ainda não queria que meu filho nascesse! Tinha medo! E gente, meus planos?! As coisas não estavam prontas!!! Eu não sabia mais o que fazer, apenas chorei muito. Tive que entender e aceitar que desta forma seria melhor para meu filho e para que mim, pois estávamos correndo risco de morte. Mas eu não queria acreditar que isto estava acontecendo. Fiquei tão nervosa, que entrei no centro cirúrgico aos prantos e em pânico, e minha pressão chegou a 22/12. Depois de muitos medicamentos, conseguiram controlar a pressão para poder realizar o parto. Chorei o procedimento inteiro de preocupação, até que finalmente escutei o choro do meu filho e o médico disse que estava tudo bem com ele. Neste momento meu choro foi de alívio. Tive que pedir para ver ele, mas me mostraram muito rápido, tempo de dar apenas um beijinho, pois era preciso levá-lo para UTI. Mas depois que o vi, acalmei. Ele nasceu de 32 semanas, com 1,510 kg, 38,5 cm, às 18h05 do dia 27/06/2014.

Quando engravidei, imaginei um parto lindo, tranquilo, se possível parto normal, em que eu pudesse pegar meu filho no colo assim que nascesse, pudesse amamentá-lo, dar carinho, beijá-lo, e em poucos dias ir embora carregando-o com aquela roupa linda que eu escolhi para ele.

Mas comigo foi diferente. Após o parto, fui para o quarto, me mostraram fotos do meu filho no celular (os avós e tios entraram na UTI, não sabiam que era permitido apenas 02 pessoas) e logo depois dormi, a noite inteira (deve ter sido efeito da anestesia). No outro dia acordei sem ter meu filho por perto, não tive nenhuma notícia. Levantei (que dor!), tomei um banho, me arrumei e esperei dar 11h, horário de visita da UTI (ninguém me informou que eu teria direito de ir em qualquer horário, por ser mãe). Enquanto esperava, a moça do lactário me chamou para me orientar a estimular a descida do leite.

20140702_165723Enfim, deu o horário de visitar meu filho. Entrei na recepção da UTI e tive que fazer todo o procedimento: lavar e passar álcool em gel nas mãos e colocar avental. Só quem passou por isso entende o clima tenso. Você entra em uma sala em silêncio, toda iluminada, onde se escuta apenas os barulhos das máquinas (tento, mas não consigo esquecer o “pi pi pi”) e a enfermeira fala: “seu filho está naquela incubadora”. Finalmente vou conhecer direito meu bebê. Como ele é lindo! Tão pequenininho! Mas apenas pude observar e tocá-lo através da abertura da incubadora. Queria tanto beijar, abraçar, cheirar, sentir…

Ah, lembrando que não deu tempo nem de levar fralda, cueiro e manta para meu filho. Até hoje não sei de quem ele usou durante a primeira noite. Provavelmente, pegou emprestado de algum coleguinha (rs). Ele só usava fralda e cueiro na UTI. A manta era colocada em cima da incubadora, para o bebê ter alguns momentos no escurinho. No terceiro dia de vida ele teve icterícia e ficou 02 dias no banho de luz.

Fiquei 03 dias no hospital após o parto, pois era preciso acompanhar até estabilizar minha pressão. Mas depois tive alta. Que momento doloroso sair do hospital com a barriga e os braços vazios. Como uma mãe consegue dormir à noite, longe do seu filho recém-nascido e preocupada, pensando em como ele está?

Todos os dias, eu ia às 7hs para o hospital e ficava até as 21hs. Só ia para casa para almoçar e tomar banho. Quando eu estava muito cansada, eu cochilava em uma sala que tinha no hospital para as mães da UTI. Como conseguir descansar? Não dá! Todos os dias os médicos me passavam um relatório do quanto ele havia engordado, se tinha feito xixi, evacuado e como tinha passado a noite. Cada informação era muito importante. E cada desenvolvimento, resultado positivo nos exames, ML a mais mamado, grama ganha, era uma vitória. Eu acompanhava, passei a entender as marcações dos monitores, e se fizesse algum barulho diferente ou marcação, eu já ficava apreensiva. Somente após 5 dias que pude pegá-lo no colo, pois conversando com a pediatra de plantão, falei da minha vontade de ter ele nos braços e ela ficou espantada que ninguém tinha me falado que eu poderia pegá-lo! Lógico que com uma série de cuidados. Enfim, ela pediu para que preparassem tudo e finalmente o peguei! Nossa, que emoção (neste momento eu choro só de lembrar)! Indescritível este momento! E a partir daí até a fralda eu pude trocar.20140706_161231

No sexto dia, a pediatra pediu para que a fonoaudióloga viesse para estimulá-lo a mamar no peito. Quando ele fez uma semana, entrei na UTI e não vi meu filho na incubadora. Meu coração gelou. Até que a enfermeira me chamou e me mostrou (ele estava praticamente na minha frente) e falou que ele ia tomar o primeiro banho!! Nossa, que alívio! E assim se passaram 10 dias. Eu chorava toda noite ao sair do hospital, por não ter ele em casa comigo e com meu marido.

Após este período, meu filho teve alta e foi transferido para o quarto, até que alcançasse o peso ideal e tivesse tudo controlado para finalmente ir para casa. Todo dia de manhã, antes de tomar banho, ele era pesado, medido e fazia teste de glicemia (pois era muito baixa). Suas mãozinhas e pezinhos eram roxos de tantos exames que eram feitos. A cada 3hs eu tentava dar de mamar, mas depois a enfermeira trazia a mamadeira (ou com o leite que eu tirava ou com complemento). O bebê prematuro tem dificuldade de mamar no peito no início, pois ele não consegue sugar, respirar e engolir ao mesmo tempo (fui saber disso muito tempo depois). No resto a rotina era normal, como de qualquer RN, colocava no sol, trocava fraldas, dava mama. Neste período, tive ajuda da minha mãe e do meu marido, que dormiam comigo no hospital para me ajudar a noite, além do apoio das enfermeiras.

Durante o dia eu recebia visita dos familiares e amigos. O pediatra que acompanhava meu filho na época, nos disse que quando ele chegasse em determinado peso, ele iria embora. No 10º dia ele pesou 10g a mais que a meta! Nossa, que felicidade! Comecei a arrumar as coisas, pois sabia que iria para casa. Mas neste dia o pediatra não foi ao hospital de manhã, nem a tarde… e comecei a ficar impaciente. Até que consegui o celular do médico, liguei para ele e ele estava numa correria, acompanhando partos e só poderia passar quando terminasse tudo. Ele só chegou às 21hs, mas finalmente deu alta! E assim, pude colocar aquela linda roupinha que eu tinha escolhido para meu filho sair do hospital. Ele era tão pequenininho, que o cinto do bebê conforto ficava frouxo nele. No carro, tive que segurá-lo no colo. Fomos à farmácia comprar algumas coisas e chegamos em casa quase 22h30.

Finalmente a família estava completa! Eu, Ricardo (meu marido), Eduardo e Sophia (nossa filha de pelos). Foi uma felicidade tão imensa que não contive as lágrimas em saber que o meu filho estava bem e que iriamos dormir todos juntos.

No começo tive que ter um cuidado especial, ele não pôde receber visitas no início, só saímos de casa com ele após ele completar 2 meses (ele só saia para ir na pediatra e tomar vacina), ele precisou tomar vacina especial para prematuro e foi toda semana na pediatra para pesar. A limpeza da casa foi redobrada. Tive muita preocupação com o seu peso e se mamava o suficiente, para se desenvolver adequadamente. Então tive que dar complemento para ele mamar. Mas não desisti do meu sonho de amamenta-lo. Todos os dias eu tirava leite e oferecia na mamadeira, mas insistia para que ele mamasse no meu peito. Persisti e não desisti, até que finalmente, com 2 meses, ele conseguiu sugar. Amamentei até os 9 meses, quando ele começou a rejeitar. O leite materno nunca foi exclusivo, mas fiquei orgulhosa e feliz por ele ter conseguido e eu também.

Os prematuros precisam realizar e repetir uma série de exames, acompanhar peso e o crescimento frequentemente, para saber se o bebê está se desenvolvendo dentro do esperado. A saúde precisa de uma atenção especial. Acho que toda mãe tem uma preocupação com seu filho, mas acredito que as mães de UTI, que passaram por momentos tão delicados eFotos-459 sofreram muito, acabam se preocupando demais por qualquer detalhe diferente. Meu filho fez por um tempo fisioterapia para auxiliar no seu desenvolvimento motor. Mas graças a Deus os resultados dos exames foram positivos e ele não teve nenhuma sequela.

Hoje eu tenho muito mais informação sobre a prematuridade. Pesquisei, li muito e fui atrás de informações. Quando passei por isso, fiquei completamente perdida. Hoje vejo que não tive muita orientação e talvez fizesse algo diferente na época. Mas já foi!!! Vamos olhar só pra frente agora.

O apoio da família e dos amigos foi essencial para eu conseguir aguentar e seguir em frente. Fiquei muito debilitada, tinha hora que perdia a força e só chorava. Eu não tinha energia para fazer nada. Conseguia apenas cuidar do meu filho e nada mais. Devido a toda esta situação que passei, acabei tendo depressão pós parto.

Mas aos poucos as coisas foram se ajeitando, e hoje levamos uma vida completamente normal! Fazemos questão de levar o nosso filho para onde formos, seja de “parquinho a barzinho”. Fiz questão de comemorar todos os seus “mesversários” e fizemos uma linda festa (digna de um príncipe) para comemorar seu primeiro ano de vida.

Foto-82Eduardo, o príncipe Dudu, é um guerreiro! Tem uma força tão grande, que veio ao mundo para nos salvar. Veio nos mostrar o mais lindo amor que existe, o puro e verdadeiro. Veio iluminar e abençoar as nossas vidas. Veio alegrar a todos. Veio me mostrar que nem tudo nesta vida é planejado e que Deus decide a hora certa para cada coisa, somente Ele decide o que cada um é capaz de carregar e que sabe do nosso destino. Nos fez ter ainda mais fé.

Nosso pacotinho foi abençoado por nascer no dia da Mãezinha Perpétuo Socorro, que o protegeu e o tornou vitorioso.

Espero que com este depoimento eu possa ajudar muitas mães de UTI, que precisam de muito apoio. Ainda tenho muita coisa para contar, mas ficaria grande demais o texto (isso porque demorei a começar a escrever rsrsrs). Quem sabe escrevo outro!?!?

Um abraço cheio de carinho para todas as mães de UTI. Só nós nos entendemos. E só posso dizer uma coisa, demora, tenha forças, mas no final tudo passa e dá certo.

E agradeço de coração a todos que me ajudaram naquela fase, familiares e amigos, aos profissionais que cuidaram do nosso príncipe com tanta dedicação e carinho, mas principalmente a minha mãe e meu marido, que estiveram ao meu lado em todos os momentos, me apoiando e me dando forças. Amo vocês!

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