A festa do vizinho

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Final de semana desses me subiu uma preocupação levantada pelo meu vizinho. Ali na casa dele começou a rolar uma festa, não fiquei curiano (bisbilhotando) muito, mas parecia ser uma festa entre amigos, adultos que se encontram para beber e falar bobagens, falar alto e talvez se desentender para que segunda-feira o trabalho possa ainda ser suportado.

Descobri depois pelo ‘parabéns’ que era uma festa de aniversário, o aniversariante? Não faço ideia, tão pouco conheço meu vizinho e saber de aniversário vindo de lá é coisa totalmente absurda, nada contra meu vizinho ou o que quer seja que venha dali, mas realmente não temos qualquer intimidade.

Pensando bem, existem algumas coisas que sou contra sim e que vem de lá, o som alto. Neste dia, da festa de aniversário o som estava tão alto que não consegui dormir já que a cada variação de tons e semitons a janela do meu quarto vibrava, a janela era a única realmente a vibrar com essa festa, logo, tive de ir lá pedir para baixar o volume do som. Deu tudo certo, pedi educadamente, expus a minha condição de ter filho pequeno para tentar sensibilizar o coração do vizinho a pensar no alcance do som alto de sua casa.

Tudo bem, abaixou o som e agora a minha janela já não vibrava mais, acredito que todos temos direito de fazer festas em nossas próprias casas e para animar a festa colocar um som, mas daí querer que as janelas da vizinhança vibrem com isso é um pouco demais.

Com o som mais baixo agora dava para perceber qual a letra da música, aquilo que antes era só vibração e tremedeira se transformou em melodia e letra e como é costumeiro das pessoas que colocam o som para vibrar janelas de vizinho as letras eram das mais sexuais possível, era mesmo pornográfica sem nenhuma pintada… Ops! Quis dizer, pitada de romantismo ou sensibilidade pudica. Até aqui tudo bem, cada qual com sua pornografia, penso eu.

A preocupação minha levantada por meu vizinho foi a de que havia crianças na festa, crianças que percebi pela voz e tamanho quando fui lá pedir para baixar o som em torno de quatro a seis anos de idade. Fiquei me questionando, como pode uma festa de aniversário que tem crianças, mesmo que a festa não seja de criança existir também tanta pornografia?

É comum os adultos pensarem que as crianças não são afetadas por essas coisas já que elas esquecem com o passar do tempo, mas isso não é verdade, elas tanto não esquecem como é comum que elas reproduzam aquilo que viram, talvez as crianças não vão praticar exatamente aquilo que a música estava dizendo, mas com essa experiência elas aprendem que o sexo é banal, que a satisfação imediata é mais importante que a conquista, por aí vai.

O que ficou para mim dessa experiência foi tentar pensar de que forma podemos ajudar as crianças a se tornarem pessoas mais sensíveis na relação com outras pessoas. A conclusão que tiro é que deve ser muito simples, já que as crianças aprendem mais por imitação do que por indicação, então basta que sejamos sensíveis quanto a realidade delas. É possível que meu vizinho não tenha intenção alguma de incutir na mente das crianças que lá estavam qualquer coisa de banalidade sexual e queria apenas se divertir com outros adultos e suas músicas vibrantes, mas havia mais coisa acontecendo ali do que apenas adultos se divertindo e crianças correndo. As crianças também estavam aprendendo.

As crianças aprendem assim, com as coisas poucas da vida, não precisa que estejam em salas de aula ou qualquer ambiente controlado para isso e é aqui, nas coisas poucas da vida que a sensibilidade dos adultos consegue ajudar a criança a se desenvolver, é pena que as crianças não aprendem só as coisas boas como a gente gostaria que fosse, é por isso que precisamos ampliar nossa atenção e perceber que há situações de adultos que é melhor que as crianças não participem, se não há outra forma o jeito é trocar a música por alguma coisa menos pornográfica então.

Depois que percebi a letra da música que rolava na casa do vizinho me arrependi um pouco de ter pedido para baixar o volume, pelo menos antes era apenas a janela do meu quarto que vibrava, depois passou a ser a letra da música que não saiu da minha cabeça por uma semana e minha preocupação com as crianças que sem poder fazer muita coisa resolvi ao menos escrever este texto.

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Por William Souza

Psicólogo Clínico – CRP: 14/04624-9.

Contato: (67) 99631-5927.

E-mail: wics.clinica@gmail.com

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